Família Aguiar: como funciona busca com cães farejadores por desaparecidos há quase dois meses no RS

  • 20/03/2026
(Foto: Reprodução)
Cães farejadores do Corpo de Bombeiros Militar do RS Equipes do Corpo de Bombeiro Militar (CBM) e da Polícia Civil realizam mais trabalhos de busca pela família Aguiar em áreas rurais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os agentes estão utilizando cães farejadores para procurar os corpos de Silvana Germann de Aguiar, de 48 anos, e os pais dela, Isail Aguiar, de 69, e Dalmira Aguiar, 70, desaparecidos desde os dias 24 e 25 de janeiro. Cães e policiais funcionam como um só agente — e por isso são chamados de binômios. O treinamento é feito pelos bombeiros e a atuação nas buscas é solicitada pela polícia. Os animais são treinados desde os 45 dias de vida para diferentes finalidades em diferentes locais. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp No desaparecimento da família Aguiar, estão sendo levados cães de “duplo-emprego”, habilitados a buscar tanto pessoas vivas, quanto pessoas mortas. A Polícia Civil já trata o caso como um feminicídio e um duplo homicídio. Os binômios vão até o local indicado pela polícia e atuam em uma área delimitada buscando por algum vestígio. Os cães costumam trabalhar em ternos de até uma hora e depois descansam. Neste caso, são usados dois cães a cada chamado. Até o momento, os corpos não foram encontrados. “Os cães têm faro e agilidade para percorrer um terreno extenso em um tempo muito menor do que um ser humano faria. O binômio funciona como uma engrenagem que se completa: homem-cão. Para nós, é uma ferramenta indispensável. Não consigo mais ver uma atividade de busca e salvamento sem a presença do cão”, afirma o primeiro-tenente Rafael Vieira, porta-voz do Corpo de Bombeiros no RS. 🐕‍🦺 Os cães possuem capacidade olfativa quase 50 vezes maior que a dos seres humanos. O nariz do ser humano conta com cerca de 5 milhões de células olfativas, enquanto os cachorros possuem cerca de 200 milhões. Graças a esse sentido apurado, os cães conseguem detectar e diferenciar muito mais cheiros. “Durante as enchentes de 2023 e 2024, conseguimos ver como é importante a presença do cão nas atividades dos bombeiros e da política”, completa. Cada animal é habilitado para uma finalidade. Cães de esquadrões antibomba, por exemplo, são treinados para serem extremamente cautelosos a fim de evitar a ativação de artefatos explosivos. Já aqueles que buscam pessoas desaparecidas há quase dois meses são treinados para buscar diferentes odores. “Temos convênios com hospitais e os cães são treinados com segmentos de pessoas que faleceram e que são autorizados pelo doador. Então eles estão habilitados para trabalhar com restos humanos. O corpo que morre solta odores diferentes ao longo do tempo, então temos que treinar eles com corpos de uma semana, duas semanas, um mês etc. Ele busca realmente o cheiro de uma estrutura humana que morreu”, explica o primeiro-tenente Vieira. Os binômios são inseparáveis. O policial condutor fica com o animal o tempo inteiro durante o serviço no quartel e depois o leva junto para casa em períodos de folga. Mas o trabalho também exige um nível de sigilo e ambos só conhecem o local em que vão realizar as buscas no momento da ação. Polícia e bombeiros fazem buscas com cães farejadores a família desaparecida no RS Autoridades concentram buscas em área rural As autoridades concentram esforços na área rural de Gravataí, após perícia identificar um sinal do celular de Silvana de Aguiar, de 48 anos, na região, dias depois do seu desaparecimento em 24 de janeiro. Na mesma região também se localiza um sítio pertencente a um familiar do principal suspeito do crime, o policial militar Cristiano Domingues Francisco. Na sexta (13), os trabalhos ocorreram na região da Vila Anair, em uma residência que seria de um familiar do suspeito, conforme apurou a RBS TV. Foram pelo menos quatro locais de busca, incluindo áreas rurais de Cachoeirinha e Gravataí. A polícia apreendeu pelo menos um telefone celular e um notebook. Além disso, dois veículos foram apreendidos para perícia. Os bens são de familiares do principal suspeito do crime. As contas bancárias de Silvana, Isail e Dalmira não tiveram movimentação no período. Em razão disso, a polícia praticamente descarta encontrar a família com vida. Silvana, inclusive, integra a lista oficial de vítimas de feminicídio no RS em 2026. "Nenhuma pessoa ficaria mais de 40 dias fora da sua residência sem fazer movimentações financeiras para subsistir. Não condiz com a realidade", afirma o delegado Anderson Spier. A principal linha de investigação é de que se trata de feminicídio (contra Silvana), duplo homicídio (pais dela) e ocultação dos cadáveres. O único suspeito é o policial militar e ex-companheiro de Silvana, Cristiano Domingues Francisco, que está preso temporariamente desde 10 de fevereiro. Em nota, o advogado Jeverson Barcellos, que representa Cristiano, informou que mantém "efetiva colaboração com as autoridades" e que "irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus". Leia abaixo a íntegra Com a prorrogação da prisão de Cristiano, a polícia espera concluir o inquérito sobre o caso em até 30 dias. Cães farejadores são usados em buscas a família desaparecida em Cachoeirinha Reprodução/RBS TV Eletrônicos apreendidos Na semana passada, a Polícia Civil cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa de um amigo do PM. O homem, que não é investigado e presta depoimento apenas como testemunha, foi citado por Cristiano como alguém com quem teria jantado na noite em que Silvana desapareceu. O objetivo é checar o álibi. Na residência, os policiais apreenderam um celular, um pen drive, um HD externo e um videogame. Conforme a polícia, o telefone foi apreendido para que seja checada a geolocalização, mensagens de texto que tenham sido trocadas com o suspeito e outros dados. Já o videogame foi apreendido para verificar se o dispositivo foi conectado à rede Wi-Fi da casa de Cristiano naquela noite. O amigo disse à polícia que passou a noite de 24 de janeiro na casa de Cristiano, onde também estava o filho do suspeito, e eles teriam jogado videogame até a madrugada do dia 25. O Instituto-Geral de Perícias (IGP) afirmou que "os laudos, assim que concluídos, sempre são entregues diretamente aos cuidados da autoridade solicitante". Não há prazo para a devolutiva. Na ocasião, o advogado de Cristiano disse que ficou surpreso com as buscas na casa desse amigo, já que ele é uma testemunha indicada pela própria defesa. "Bastaria solicitar a entrega do aparelho para perícia, o que seria feito com o intuito de colaborar com as investigações, da mesma forma que foi a franquia no sítio deixado pelo pai de Cristiano e demais atos colaborativos", destaca. Silvana Germann de Aguiar, Dalmira Germann de Aguiar e Isail Vieira de Aguiar Imagens cedidas/Polícia Civil Outros elementos apurados As investigações também já levaram a polícia a um sítio da família do PM e a outra propriedade dos Aguiar, além das casas dos desaparecidos e a do próprio suspeito. Paralelamente, a polícia tenta esclarecer quem é o dono de um carro vermelho que entrou na casa de Silvana no dia do desaparecimento. Já outra frente aguarda o resultado da perícia nas amostras de sangue encontradas no pátio da residência da vítima. "A gente ainda precisa de algumas perícias com relação ao material genético, que estão pendentes", acrescenta Spier. Um mês do desaparecimento da família Aguiar, em Cachoeirinha (RS) Relembre o caso O g1 montou a linha do tempo que detalha os principais acontecimentos da investigação. Confira: Antes do sumiço 2 de janeiro: Silvana Germann de Aguiar solicita, em um grupo de mensagens, o contato do Conselho Tutelar; 9 de janeiro: Silvana comparece ao Conselho Tutelar para registrar que seu ex-marido, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, desrespeitava as restrições alimentares do filho do ex-casal. O fim de semana dos desaparecimentos 24 de janeiro (sábado): Silvana é vista pela última vez. Uma publicação em seu perfil nas redes sociais dizia que ela havia sofrido um acidente em Gramado, mas que estava bem. Segundo a polícia, o acidente nunca aconteceu e o objetivo da postagem seria despistar o desaparecimento. Imagens de uma câmera de segurança registraram uma movimentação atípica de veículos na noite de 24 de janeiro: - 20h34: Um carro vermelho entra na residência de Silvana, e sai oito minutos depois; - 21h28: O veículo branco de Silvana entra na garagem da casa; - 23h30: Outro automóvel chega ao local, permanece por 12 minutos e vai embora. 25 de janeiro (domingo): - Alertados por vizinhos sobre a postagem, os pais de Silvana, Isail e Dalmira Aguiar, saem para procurar a filha. O casal de idosos tenta registrar o desaparecimento na delegacia distrital, mas a unidade estava fechada; - Segundo a Polícia Civil, após saírem da delegacia, os idosos seguiram para a residência do ex-genro, Cristiano. Em depoimento prestado inicialmente como testemunha, o policial afirmou que o casal teria pedido ajuda para procurar Silvana, já que ele é policial militar. Ele teria dito que estava preparando o almoço e que auxiliaria mais tarde; - Ainda conforme a investigação, após a visita, os idosos teriam retornado para casa e, horas depois, teriam sido vistos por vizinhos entrando em um carro não identificado, de cor desconhecida. Desde então, não foram mais vistos. Início das investigações 27 e 28 de janeiro: As ocorrências de desaparecimento são registradas formalmente. O ex-marido, Cristiano Domingues Francisco, comunica o sumiço de Silvana, e uma sobrinha, informa à polícia que os idosos também não foram mais vistos; 28 de janeiro: Cristiano comparece ao Conselho Tutelar para pedir que o filho fique sob sua guarda durante as investigações; 1º de fevereiro: Cristiano envia uma foto de dentro da casa dos sogros para uma conhecida, mostrando o veículo do casal; 3 de fevereiro: A polícia ouve seis pessoas, incluindo o ex-marido e sua atual companheira. Um projétil de arma de fogo é encontrado no pátio da casa dos idosos; 4 de fevereiro: A Polícia Civil confirma que trata o caso como crime, descartando sequestro por falta de pedido de resgate. Perícias e prisão 5 de fevereiro: A perícia coleta material na casa de Silvana, encontrando vestígios de sangue no banheiro e na área externa. 7 de fevereiro: O celular de Silvana é localizado após denúncia anônima, escondido sob uma pedra em um terreno baldio próximo à casa dos pais; 9 de fevereiro: Reunião de autoridades confirma que o cartucho encontrado na casa dos idosos é de festim (munição não letal); 10 de fevereiro: - Cristiano Domingues Francisco é preso temporariamente após quebra de sigilo telefônico indicar movimentação suspeita. A reportagem tem acesso a áudios nos quais ele estaria tentando interferir na investigação. - Familiares e amigos realizam um protesto e caminhada em Cachoeirinha pedindo solução para o caso; - O filho de Silvana é encaminhado para a casa dos avós paternos. Em áudio, PM suspeito de matar família no RS pergunta sobre investigação 13 de fevereiro: É divulgado que o suspeito e sua atual companheira se recusaram a fornecer as senhas de seus aparelhos. 20 de fevereiro: - O policial militar prestou depoimento à polícia. De acordo com a defesa, Cristiano ficou em silêncio; - Polícia confirma que o mesmo carro entrou duas vezes na residência de Silvana no dia em que ela desapareceu. Contudo, não foi possível identificar a placa. Assim, não se sabe quem é o proprietário. 24 de fevereiro: A perícia do celular Silvana mostrou que o aparelho nunca esteve em Gramado, diferente do que indicava a publicação feita em 24 de janeiro em suas redes sociais. Um mês do desaparecimento 24 e 25 de fevereiro: O desaparecimento da família Aguiar completa um mês. 25 de fevereiro: Silvana é considerada a 20ª vítima de feminicídio no RS em 2026. 26 e 27 de fevereiro: Polícia Civil realiza buscas pelos corpos em áreas de matas e rios próximos a Cachoerinha. Nota da defesa do PM preso "A defesa de Cristiano diante da prorrogação da prisão temporária por mais 30 dias, vai acompanhar o andamento das investigações, estando por seus familiares à disposição de manter a efetiva colaboração com as autoridades. Por fim, irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus." Infográfico: pais e filha desaparecem em Cachoeirinha Arte/g1 VÍDEOS: Tudo sobre o RS

FONTE: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/03/20/familia-aguiar-como-funciona-busca-com-caes-farejadores-por-desaparecidos-ha-quase-dois-meses-no-rs.ghtml


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