'A síndica é como um prefeito': conheça condomínio gigante à beira-mar no RS que funciona como uma cidade
08/02/2026
(Foto: Reprodução) Conheça condomínio gigante à beira-mar no RS que funciona como uma cidade
Em Tramandaí, no Litoral Norte do RS, um prédio chama a atenção de quem passa pela orla. À primeira vista, parece um edifício residencial de três andares, como tantos outros do litoral.
Mas basta olhar com mais cuidado para perceber a dimensão do condomínio Quebra-Mar, que ocupa um quarteirão inteiro à beira da praia.
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São 264 apartamentos, distribuídos em blocos construídos por etapas, a partir da década de 1960. De frente para o mar, o prédio tem cerca de 200 metros de extensão. Por dentro, há aproximadamente um quilômetro e meio de corredores, somando os três pavimentos.
“Ele é um dos primeiros prédios construídos aqui e faz parte da orla de Tramandaí”, observa o aposentado Renato Girardi, ao olhar para a fachada.
Para muitos moradores da cidade, o edifício é uma referência visual.
“É um clássico daqui. Muitos apartamentos. A gente ouve falar, mas não conhece por dentro”, diz Luciane Mendes, também aposentada.
São 264 apartamentos, distribuídos em blocos construídos por etapas, a partir da década de 1960
Reprodução/RBS TV
Uma estrutura que funciona como bairro
O funcionamento do condomínio exige uma rotina próxima à de um bairro. Há 264 vagas de estacionamento, portarias, equipes de limpeza e circulação diária de mais de mil pessoas durante o verão. O zelador Leutério Molinari trabalha no local há 25 anos.
“Isso daqui é uma cidade pequena que a gente acomoda dentro do condomínio”, resume. Ao comparar a função dos gestores, ele brinca: “A síndica é como um prefeito, e eu sou um secretário”.
Claudia Gomes assumiu a sindicância há pouco mais de seis meses. Segundo ela, a estrutura prioriza a funcionalidade.
“Tem mercado o ano inteiro, uma praça. A ideia é de que a pessoa não precise tirar o carro da vaga. O que chama atenção aqui é o simples, uma estrutura organizada e cuidada”, afirma.
Dentro do condomínio funcionam um mercado e um restaurante. A comerciante Rosane Raupp trabalha no local há 40 anos:
“Todo mundo é cliente e vizinho. A gente se conhece há décadas”, conta. O restaurante surgiu para atender moradores mais antigos. “Antes, eu fazia vianda. Depois, abrimos o restaurante porque o pessoal queria mais comodidade”.
História ligada ao crescimento da cidade
A aposentada Alice Weissheimer, 86 anos, começou a frequentar o Quebra-Mar quando o prédio ainda estava em construção.
“Naquela época não tinha calçamento, era muita areia. Quando chovia, a areia tomava conta”, lembra. Segundo ela, os blocos eram erguidos conforme as vendas avançavam.
O arquiteto Patrike Godoy explica que o projeto reflete o período em que foi concebido.
“É um edifício da década de 60, com influência do modernismo do pós-guerra. Tem uma planta simples, uma modulação rígida e uma fachada repetitiva. Hoje estamos acostumados a prédios altos; horizontalmente, ele é muito grande”.
Regras, disciplina e convivência
Apesar do grande número de moradores, a rotina é marcada pela organização. Para o médico Augusto Alt Bandeira de Mello, morador antigo, isso tem relação com a origem das primeiras administrações.
“Muitos síndicos eram militares. Isso criou uma disciplina que ficou como tradição. O prédio sempre foi ordeiro”, afirma.
Ele também lembra dos campeonatos de futebol organizados no condomínio, que reuniam crianças e adolescentes — entre eles, Ronaldinho Gaúcho, quando ainda jogava nas categorias de base.
Campeonatos de futebol organizados no condomínio reuniam crianças e adolescentes — entre eles, Ronaldinho Gaúcho, quando ainda jogava nas categorias de base
Reprodução/RBS TV
O Quebra-Mar também aparece no cinema. O prédio foi cenário do filme Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, lançado no início dos anos 2000.
Verão cheio, inverno vazio
Durante a alta temporada, o condomínio fica ocupado quase por completo. No inverno, apenas cerca de 15 apartamentos permanecem habitados.
Para a advogada Ana Maria Varella, que mora no prédio o ano todo, o período mais tranquilo tem vantagens.
“No inverno, é melhor ainda. O prédio fica só para quem mora aqui”, diz.
Os apartamentos no Quebra-Mar estão à venda a partir de cerca de R$ 230 mil. Muitos proprietários alugam os imóveis durante o verão. Foi assim que a dona de casa Kely Avila trouxe a família para passar a temporada pelo terceiro ano seguido.
“Tudo é perto, é beira-mar, tem segurança e espaço para as crianças”, afirma.
Gerações que se repetem
A professora Suzimary Specht observa que o condomínio mantém vínculos familiares ao longo das décadas.
“Hoje os filhos fazem aqui o que a gente fazia quando era adolescente. As famílias voltam, os netos chegam, e isso se repete”, conta.
Alguns moradores praticamente não saem do prédio. A aposentada Clareli Ambrosini Salame prefere observar o movimento da praia da janela do apartamento. “Foram muitos anos de praia. Aproveitei muito”, diz.
Já no térreo, o aposentado Ricardo Hauser vive a poucos passos do mar.
“Eu passo a tarde aqui, tomando chimarrão e olhando o mar. É só atravessar, já está na calçada”, relata.
Para Leutério Molinari, que começou como zelador e hoje é também proprietário de um apartamento, o Quebra-Mar é projeto de vida.
“Quero continuar morando aqui depois que parar de trabalhar”, afirma.
Mais de seis décadas depois do início da construção, o condomínio segue como um dos espaços mais reconhecidos da orla de Tramandaí — não pela altura, mas pela escala e pela forma como concentra, à beira-mar, a rotina de quem passa o verão, o inverno ou a vida inteira ali.
Mais de seis décadas depois do início da construção, o condomínio segue como um dos espaços mais reconhecidos da orla de Tramandaí
Reprodução/RBS TV
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